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sábado, 15 de julho de 2017

Cultura do Deslocado: Nerd, ser ou não ser?

Recentemente comecei a ler a obra de Douglas Adams, “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e divulguei nas redes sociais. Logo veio o pessoal que há anos leu a obra e se manifestou, dizendo que eu não sou nerd, que finalmente decidi expandir minha cultura nerd para além dos quadrinhos e que ser nerd é um título dados pelos seus iguais.
Bem, eu sempre me senti um deslocado, que, pesquisando, descobri ser alguém fora de seu ambiente habitual, e é assim que eu me sinto, pois gosto de coisas que outros não costumam, principalmente na minha idade. Quadrinhos, seriados, filmes, livros, pôsteres, estatuetas, miniaturas, e por aí vai. Hoje gostar de uma boa parte dessas coisas se tornou pop, o que terminou descaracterizando a palavra deslocado. Com isso, decidi adotar o termo nerd, mas não por me considerar uma pessoa inteligente ou algo assim, mas por as vezes, me sentir excluído de determinados assuntos, pois meus interesses divergiam das outras pessoas.
Nunca gostei de futebol, algo totalmente popular no Brasil e que a maioria dos brasileiros ama acompanhar. Mesmo que torça por um time, nunca fui uma pessoa que conversa ou discute sobre quem está no time ou se ele tem ganhado ou perdido e os motivos dessa derrota. Nunca fui um afoito por esportes, pelo contrário, enquanto os outros jogavam futebol, vôlei, basquete, entendendo as complexas regras dentro desses esportes, eu ficava sentado em um canto, desenhando – ou, pelo menos, tentando – e criando personagens baseados nas histórias em quadrinhos que eu lia.
Nunca fui uma pessoa politizada. Sempre me senti excluído em conversas ou discussões políticas, pois sempre pensei – e ainda penso – que a política é um mal, as vezes necessário, que somente faz você discutir e, às vezes, menosprezar àquele que não tem o mesmo sentimento político que você. Quando estudei História, percebi que meus valores políticos estavam mais relacionados a uma ideia utópica Liberal, que constitui da liberdade sem restrições, em um enxugo do termo. Acredito que todos temos liberdade de nos expressarmos, desenvolver nossas ideias e coloca-las em prática, na medida do possível, pois somos indivíduos pensantes e racionalizamos o que fazemos. Lógico, isso é uma ideia e, como eu disse, utópica.
Nunca me aprofundei em grandes discussões sobre qualquer coisa. Meus poucos amigos sabem que quando tenho algo a expressar, digo a eles e pronto. Tento não ofender ninguém, pois não acredito que as palavras precisam ser ofensivas para fazer com que as pessoas reflitam. Sempre vejo grandes discussões como coisas maçantes e chatas. Cada um tem uma ideia sobre determinada coisa, não adianta tentar convencê-la do contrário.
Esse seria eu, uma pessoa que se expressa pouco, não muito afeiçoado a esportes, apolitizada – já que prefiro uma utopia do que os conceitos políticos da atualidade –, um deslocado social, mas aparentemente não um nerd.
Quando ocorreu, recentemente, o Dia do Orgulho Nerd, surgiu várias postagens nas redes sociais sobre isso e pessoas diziam que “você não pode se considerar um nerd se não leu ‘O Guia do Mochileiro das Galáxias’” (Sim, isso novamente). Quando achei estranho pessoas que colocavam aros/armações de óculos, sem lente, para fazer parte da tribo, usavam camisetas com estampas de super-heróis ou videogames ou seriados, para se sentirem identificados, mesmo que não tivessem ideia do que estavam usando, só queriam se sentir incluídos... INCLUIDOS!!! Mas o problema é que não desejam adquirir mais conhecimento, somente serem aceitos em um “universo” de deslocados. Isso me aborrece um pouco e, talvez, seja nesse ponto que os... nerds se sintam comigo por não ter lido ainda a obra de Douglas Adams.
O que acho mais interessante nisso é que se você for um trekker, fã de Star Wars, fã de séries de ficção científica, fã de Doctor Who, fã de seriados, DCnauta, Marvete, fã de quadrinhos, fã d’As Crônicas de Gelo e Fogo, fã d’O Senhor dos Anéis, fã de Harry Potter, fã de series de livros, jogam Mario Bros., Grand Theft Auto V, Plants vs. Zombies, fãs de games, que participam de Vampiro: A Máscara, Dugeons & Dragons,  e nunca terem lido a série de Adams, não são nerds. Recentemente, conversando com um amigo que otakus eram um novo tipo de nerd, ele surtou e disse que deixaria de ler mangás, pois não aceitava isso (foi mais ou menos isso).
Quando eu falo de nerds, eu tenho uma visão de um estilo de vida. Mas esse estilo de vida se divide em vários subestilos. Temos os fanboys, fandoms, Trekkers, gamers, otakus – sim, eles são um subestilo dos nerds –, geeks (em algumas culturas, é assim que se define o estilo de vida do deslocado), cinemaníacos, entre outros que eu não sei nomear. Só que a origem da palavra – como já havia mencionado mais acima – foi uma forma de definir pessoas que se diferenciavam por serem deslocadas, fora da realidade comum, mais inteligentes, mais dedicados aos estudos. E, ser qualquer dos subestilos acima, não os tornam necessariamente um nerd (ou geek, dependendo da sua realidade).
Tá, o dia 25 de maio, graças ao fãs de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, é considerado, oficialmente, como o “Dia da Toalha”, tornando-o como um dia onde vários fãs da obra de Douglas Adams podem celebrar. Essa data foi definida em 2001. O interessante é que, entre 1998 e 2000, o nova-iorquino Tim McEachern decidiu realizar comemorações em um bar de Albany, celebrando a data de estreia de “Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança”, primeiro filme da saga dos Skywalker. O filme estreou em 25 de maio de 1977. Somente, oito anos depois, o espanhol Germán Martínez realizou a primeira celebração no mesmo dia e chamou a atenção de todos, principalmente a mídia, para o Dia do Orgulho Nerd (ou Dia do Orgulho Geek). Coincidentemente, ambos os dias são correlacionados. Mas, pensando em um dia de comemoração para o “Dia da Toalha”, por que não escolherem o dia 05 de janeiro, quando estreou o primeiro episódio da série de TV “O Guia do Mochileiro das Galáxias” na BBC Two? Ou o dia 08 de março, dia da primeira transmissão do trabalho de Douglas Adams na BBC Radio 4? Ou o dia 11 de março, dia do nascimento de Douglas Adams? Ou o dia 12 de outubro, quando Pan Books lançou a primeira edição de “O Guia do Mochileiro das Galáxias” em Londres?
Lógico, quem sou eu para definir alguma coisa ou a realização de uma comemoração. Por exemplo, além de comemorarmos o lançamento da saga dos Skywalker em 25 de maio, também existe o “Star Wars Day”, comemorado em 04 de maio, pois faz um trocadilho com a frase em inglês “Que a Força Esteja Com Você” (May the Force Be With You), ficando “Que o 4 de Maio Esteja com Você” (May the 4th Be With You).
Outro caso é o Dia do Batman, comemorado no dia 17 de setembro. Essa data foi iniciada durante as comemorações de 75 anos do Batman, na ideia de celebrar sua primeira aparição na história “O Caso da Sociedade Química” (The Case of the Chemical Syndicate), publicada na Detective Comics #27. Eu me considero um batmaníaco e DCnauta (algo dentro dos subestilos fanboy e/ou fandom) e sei que a primeira aparição do Batman aconteceu em maio de 1939 (de acordo com pesquisas feitas, a revista Detective Comics #27 chegou às lojas em 18 de abril de 1939[1]), então por que a comemoração do Dia do Batman em setembro? Bem, nem a empresa DC Comics e ninguém mais sabe dizer o motivo, já que o primeiro episódio da série de TV estrelada por Adam West e Burt Ward estreou em 12 de janeiro de 1966[2], o filme “Batman”, estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson estreou nos cinemas estadunidenses em 23 de junho de 1989 (a première ocorreu em 19 de junho de 1989), a primeira cine série, estrelada por Lewis Wilson e Douglas Croft surgiu em 16 de julho de 1943, Bob Kane, o co-criador do Batman, nasceu em 24 de outubro de 1915 – o outro criador, Bill Finger, nasceu em 08 de fevereiro de 1914, dessa forma, por que, cargas d’água, comemorar em 17 de setembro de 2014 os 75 anos do Batman? Nem o aniversário do Bruce Wayne é em setembro, sendo considerado por alguns em 19 de fevereiro[3].
Não estou dizendo que o caso da comemoração do Dia da Toalha coincidir com o Dia do Orgulho Nerd seja o motivo de considerar somente nerds as pessoas que leram a obra completa, mas definir uma pessoa como nerd somente se ela tivesse lido o trabalho de Douglas Adams, que é uma adaptação dele próprio de um programa de rádio que ele criou, mas é o que parece.
Ok, eu não vou me considerar e nem referir a eu mesmo como nerd. Apesar de meu blog tem em seu título a palavra Nerd – isso eu não vou mudar, me desculpem – eu vou referir a mim mesmo como um fandom – talvez! – ou um fanboy – quem sabe! (por mais que eu odeie). Dessa forma, deixo aos verdadeiros nerds, que leram o trabalho de Douglas Adams, seu devido título... ah, e mesmo terminando de ler “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, não vou me considerar um nerd, pois prefiro ser um DCnauta/Batmaníaco. Um abraço desse – constantemente – deslocado.