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segunda-feira, 11 de julho de 2016

ECN ANALISA: Watchmen, um clássico que não envelhece.

Douglas Joker, do blog Ozymandias Realista, me pediu para escrever um curto texto falando sobre um dos maiores clássicos dos quadrinhos ocidentais, conhecido como divisor de águas entre a Era de Bronze e a Era de Ferro dos quadrinhos (também conhecida como Era das Trevas ou como Era Moderna), Watchmen. Sendo assim, com todo o prazer do mundo, tentarei fazer esse texto curto.
Quando foi escrita e desenhada em 1986 por Alan Moore e Dave Gibbons, a história trazia um assassino de vigilantes. Ele mata Edward Blake, um vigilante conhecido com Comediante. Ele havia surgido na década de 1940 e, de lá para cá, tornou-se um agente do governo dos Estados Unidos, agindo em operações especiais no Vietnã e fazendo serviços escusos. Outro vigilante, Rorschach, decide investigar a morte do imoral Vigilante e acredita que isso tenha a ver com um antigo inimigo do grupo ao qual fazia parte, os Minutemen, Moloch. Descobrindo que o buraco era mais fundo do que imaginava, Rorschach procura seu antigo colega de equipe, o Coruja, para que ajude-o na investigação. Tendo uma negativa, ele decide seguir com a própria forma de obter informações, mas termina preso. Nesse meio tempo, Daniel Dreiberg, o alter ego do Coruja, reencontra a colega de equipe Laurie Juspeczyk, também conhecida como Espectral, que busca uma vida diferente da que vive com o Dr. Manhattan, um ser incrivelmente poderoso.
Laurie e Dan têm vários encontros e chegam a – quase – ter relações, mas quando descobrem que Rorschach foi pego pela polícia e acusado pela morte de Moloch, eles decidem ir em busca de resgatar o companheiro. Nisso, ambos salvam pessoas de um prédio em chamas e a adrenalina do salvamento incendia o clima entre ambos. Eles salvam Rorschach e partem para uma investigação mais profunda e descobrem que tudo tem a ver com outro antigo colega de equipe, Ozymandias. Antes disso, Dan chegou a procurar Adrian Veidt, o alter ego de Ozymandias, para coloca-lo a par da teoria de Rorschach. Adrian tornou-se um megaempresário vendendo produtor ligados aos Minutemen e o perfume Nostalgia. Seu tino para os negócios vem da sua supra inteligência, que ele usou não somente para o combate ao crime, mas também para conseguir tudo o que desejava.
Antes de partirem atrás de Ozymandias, Laurie é visitada pelo Dr. Manhattan que a leva para Marte, onde ele construíra um palácio de vidro e lá explica que nada do que eles possam vir a fazer terá solução, pois eles estão fadados ao fracasso, sempre. Que tudo é momentâneo, nenhuma vitória é definitiva. Enquanto isso, Coruja e Rorschach partem para o Ártico, onde Ozymandias tem uma base e iniciou um ataque monumental, arquitetado por ele durante anos. Para esse ataque, Adrian contratou as maiores mentes do mundo e fez com que construíssem um monstro com aspectos alienígenas. Ele então decidiu soltar o monstro no centro comercial de Nova York, destruindo tudo e dando uma nova ordem mundial onde a paz seria estabelecida.
Bem, esse enredo confuso que coloquei antes da minha análise pega somente pequenos meandros do que é a história em um todo. Watchmen se tornou um fenômeno por mostrar os heróis, que mais são pessoas comuns que usam fantasias – com grande exceção para o Dr. Manhattan – que decidiram que poderiam fazer mais do que somente ver crime acontecendo. Alguns surgiram pela necessidade, outros surgiram por motivos estritamente comerciais. Alguns usavam sua alta capacidade de imaginação – e de condições financeiras – para conseguir ir além. Eram pessoas cansadas da monotonia do dia-a-dia ou cansados de ver injustiças.
Isso torna Watchmen um fenômeno especial, pois vai além dos superpoderes que geralmente vemos em revistas da DC Comics e da Marvel Comics – as duas principais da época –, pois o que move os personagens não são poderes incríveis, mas sim sua vontade de fazer a diferença. Eles são heróis, como um bombeiro que socorre uma pessoa em um incêndio ou um policial que corre riscos para salvar outros de bandidos. Eles são queridos ou odiados, pois nem todos os querem resolvendo seus problemas.
Uma das coisas que percebemos, também, é que Alan Moore busca nos mostrar como seria o mundo influenciado por eles. Como seria os Estados Unidos se o Dr. Manhattan tivesse participado da guerra do Vietnã? Se ele tivesse influenciado o desenvolvimento do mundo, nossas fontes de energia, nossa política – principalmente dos Estados Unidos, já que Nixon ainda continua sendo presidente na década de 1980.
Não vemos esses aspectos em outros quadrinhos, mas esse tipo de ação sempre foi algo que Moore trabalhou na sua época escrevendo para a publicação inglesa Warrior, como foi o caso de “V de Vingança”, onde uma sociedade distópica é comandada por uma máquina, que mudou tudo até um rebelde anárquico decide destruir tudo. No caso de Watchmen, vemos um homem extremamente inteligente vendo a paz na destruição e usando dessa forma para conseguir seu objetivo, não importando com quantas vidas sejam perdidas, desde que a humanidade fique em paz.
Watchmen mudou a forma de se ver os quadrinhos como aventuras superheróicas, mudou a forma de se olhar para os heróis somente como salvadores e também criou questionamentos de como seria nossa vida com suas interferências. Tá, alguns poderão falar que a Marvel Comics já havia criado super-heróis que não eram aceitos pela a humanidade, mas uma questão que nunca se pensou era: eles resolvem mesmo as coisas? Eles criam situações definitivas? Eles são super-heróis? Sem contar que – mencionando novamente –, com exceção de Dr. Manhattan que está mais para um deus do que um super-herói, todos são heróis fantasiados. Sim, estou sendo repetitivo, mas é Watchmen, ou seja, uma história que nos mostra heróis fantasiados.
Desculpe, Douglas Joker, mas é bem complexo falar de Watchmen e ser breve. O que me entristece foram as tentativas de revitalizar essa obra-prima com Antes de Watchmen. Mesmo com talentosos roteiristas e desenhistas, foi frustrante, pois não captou toda a essência da obra. Bem como o filme de 2009, com roteiro de Alex Tsé e David Hayter e direção de Zack Snyder, que mesmo na sua versão estendida não consegue nem a metade da representação da minissérie que revolucionou o mundo dos quadrinhos e continua sendo uma das melhores obras já realizadas.

Watchmen completa 30 anos de publicação e continua sendo algo único e absoluto.