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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

RESENHA CINEMA: Quarteto Fantástico (Fantastic Four, 2015)

 

QUARTETO FANTÁSTICO (Fantastic Four, 2015)

Direção: Josh Trank

Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater e Josh Trank

Elenco: Miles Teller, Jamie Bell, Kate Mara, Michael B. Jordan, Toby Kebell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson.

Fantastic_Four_Vol_1_1Os primeiros super-heróis da Marvel Comics surgiram em 01 de novembro de 1961 (data que consta na capa da primeira edição do Quarteto Fantástico) a partir da revista Fantastic Four #1. Isso ocorreu, pois o publisher da editora Martin Goodman, durante um jogo de golfe com o editor da DC Comics, Julius Schwartz, ficou sabendo que ele pretendia iniciar um super-grupo com os personagens da editora se unindo aos novos super-heróis que surgiram como o novo Flash (Barry Allen), o novo Lanterna Verde (Hal Jordan) e o Caçador de Marte, criando assim a Liga da Justiça da América. Então Goodman encomendou com o sobrinho de sua esposa, o editor-chefe da Marvel Comics, Stan Lee, um super-grupo também. Sendo assim, Lee se uniu a Jack Kirby e ambos criaram o Quarteto Fantástico, um grupo bem diferente da LJA, pois funcionava mais como uma família. Reed Richards era um cientista que tinha como melhor amigo o piloto de caças Ben Grimm. Reed namorava a jovem Sue Storm, que era irmã do mecânico Johnny Storm. Eles quatro decidem participar de uma viagem ao espaço que termina os transformando no Quarteto Fantástico. Reed ganha a capacidade de esticar o corpo, além de deixá-lo maleável, Ben tem a pele enrijecida como pedra, ficando alaranjada, além de ganhar uma força descomunal, Sue possui a capacidade de gerar campos de força invisíveis, além de tornar-se invisível também e Johnny ganha a capacidade de criar chamas sem se queimar, podendo revestir todo o corpo assim, além de poder voar. Nas primeiras aventuras, o Quarteto não usava fantasias (algo que somente veio a acontecer na edição número três de sua revista bimestral) e enfrentou monstros, ameaças alienígenas, Fantastic_Four_Vol_1_5magia e trouxeram de volta o príncipe submarino, Namor (Fantastic Four #4 (maio de 1962)), até que surgiu seu pior inimigo e nêmesis de Reed Richards, Victor Von Doom, o Doutor Destino (Fantastic Four #5 (julho de 1962)).

Anos se passaram e a Marvel cresceu, tanto em número de personagens quanto em popularidade, ficando na maioria das vezes a frente da DC Comics, se tornando a maior rival da editora, mas o maior sonho do primeiro editor-chefe da Marvel, Stan Lee, era um dia conseguir levar seus personagens ao cinema. Por anos ele buscou negocia-los, mas o máximo que conseguira foram filmes para a TV para o Capitão América, desenhos animados e um seriado para o Hulk. Mas quando a Warner Bros. lançou em 1989 o filme do Batman, vários estúdios buscaram personagens no mesmo estilo. Lee conseguiu negociar o Quarteto com a empresa dinamarquesa Constantin Film Produktion e a estadunidense New Horizons, que o distibuiria, mas o material final ficou tão ruim, que fora proibida a distribuição, tanto nos cinemas quanto em vídeo

Depois do boom cinematográfico da Marvel com “Blade” (1998), “X-Men” (2000) e “Homem-Aranha” (2002), a Twentieth Century Fox, que detém os direitos de produção, filmagem e distribuição dos X-Men e do Quarteto Fantástico, decidiu lançar a família inaugural nos cinemas Fantastic_Four_postercom o filme “Quarteto Fantástico” (2005). O filme tinha direção de Tim Story, que havia dirigido às comédias “Uma Turma do Barulho” (2002) e “Táxi” (2004), e trazia nos papéis principais os atores Ioan Gruffudd (Reed Richards/Senhor Fantástico), Michael Chiklis (Ben Grimm/Coisa), Jessica Alba (Sue Storm/Mulher Invisível), Chris Evans (Johnny Storm/Tocha Humana) e Julian McMahon (Victor Von Doom/Doutor Destino). Em um clima mais família, o filme não foi bem recebido pela maioria dos fãs que criticaram o ritmo do filme e a caracterização do Doutor Destino. Mesmo assim o primeiro filme rendeu US$ 154.696.080, nos Estados Unidos (a produção ficou em torno de US$ 100 milhões), o que garantiu uma continuação que estreou em 2007 quarteto-fantastico-e-o-surfista-prateadocom o nome “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado”. A direção ainda era de Story e trazia todo o elenco do filme original, além de Doug Jones como Surfista Prateado (a voz era do ator Lawrence Fishburne). A crítica ao ritmo do filme continuava, mas se estendeu a forma como o Surfista Prateado e o vilão Galactus foram interpretados, e isso impactou nas bilheterias estadunidenses, pois o filme, que custara aproximadamente US$ 130 milhões, rendeu somente US$ 131.921.738, o que mornou a franquia.

Um ano e meio antes de o primeiro filme do Quarteto chegar aos cinemas, a Marvel Comics Ultimate_Fantastic_Four_Vol_1_1lançou a revista em quadrinhos Ultimate Fantastic Four #1 (fevereiro de 2004), em uma iniciativa de reapresentar à nova geração os seus principais personagens (ela fizera algo parecido em novembro de 1996 após a saga “Massacre” (maio – outubro de 1996) com o relançamento de Fantastic Four #1 (novembro de 1996), na série “Heróis Renascem”, com roteiros de Jim Lee, Brandon Choi e James Robinson e desenhos de Jim Lee, Brett Booth, Ron Lim e Mike Wieringo). Os roteiros dessa nova versão ficaram sobre a responsabilidade de Brian Michael Bendis, Mark Millar, Warren Ellis, Mike Carey e Joe Pokaski, enquanto a arte ficou por conta de Adam Kubert, Stuart Immonen, Jae Lee, Greg Land, Pasqual Ferry, Scott Kolins, Tyler Kirkham, Eric Basaldua e Robert Atkins. Nesta nova versão os personagens são adolescentes que, em sua maioria, vivem no Edifício Baxter, que é gerenciado pelo Dr. Franklin Storm para o exército dos Estados Unidos. Esses jovens são prodígios que criam experiências para revolucionar o mundo, como no caso de Reed Richards, que cria uma portal onde envia objetos inanimados para a – chamada – Zona-N. No edifício Baxter, Reed conhece os filhos do Dr. Storm, Sue e Johnny. No passar dos anos, Reed busca ampliar o alcance do teletransporte para a Zona-N, mas sem sucesso, até que outro jovem, Victor Van Damme, refaz os cálculos de Reed, criando a possibilidade de um teletransportador em escala maior. Durante o experimento, Reed recebe a visita de seu melhor – e único – amigo, Ben Grimm. Mas durante o experimento do teletransportador, algo sai errado e macula as características físicas de Reed, Ben, Sue, Johnny e Victor, levando cada uma para um lugar diferente. Reed fica maleável, Ben fica com a pele endurecida, Sue consegue ficar invisível, Johnny entra em combustão espontânea e Van Damme tem o corpo deformado, mas aprende a manipular energia. Os quatro primeiros começam a trabalhar para o exército, mas Van Damme, culpando Reed pelo que aconteceu com ele (Reed acredita que fora Van Damme que causara o acidente, sabotando sua experiência), decide se vingar de todos. Essa versão do Quarteto Fantástico durou até setembro de 2009 na revista Ultimatum: Fantastic Four Requiem #1 e, aparentemente, é essa versão que serve como base da nova franquia do Quarteto Fantástico que estreia hoje nos cinemas brasileiros.

Digo base, pois vemos elementos que se assemelham ao universo Ultimate nessa nova versão.

quarteto-fantastico-posterO filme já começa nos apresentando Reed Richards bem jovem, dizendo ter criado o teletransporte, mas é descreditado pelo seu professor incrédulo e pessimista. À noite invade o Ferro-velho da família de Ben Grimm, que termina o ajudando no projeto que, anos depois o levaria a ser chamado pelo Dr. Franklin Storm (Reg E. Cathey) e sua filha Sue (Kate Mara) para trabalhar na Fundação Baxter. Reed (Miles Teller) ao chegar no prédio da Fundação descobre que trabalhará com o genial Victor Von Doom (Toby Kebell). Para ajudar eles dois e Sue, Dr. Storm chama seu filho rebelde, Johnny Storm (Michael B. Jordan). Quando eles finalizam o projeto e o primeiro experimento é um sucesso, eles são frustrados pela empresa que financia a Fundação, liderada pelo Dr. Allen (Tim Blake Nelson), um burocrata que acredita no uso da criação para outros fins. Mas Reed e Victor não se deixam abater e decidem, junto com Johnny, fazer a viagem. Como quarto membro, Reed chama Ben (Jamie Bell). Só que devido a tentativa de interferirem no ambiente tudo dá errado, e quando não conseguem um retorno, são salvos por Sue. Ao conseguir traze-los de volta, as coisas fogem ao controle e Reed, Ben, Sue e Johnny tornam-se anomalias. Reed foge, mas termina capturado para refazer a experiência, mas essa segunda vez torna-se uma ameaça ao nosso mundo e os quatro precisam deixar suas diferenças de lado para lutar em equipe.

O filme não é a melhor coisa que já foi feita com personagens da Marvel Comics, mas parece que a frase “se não é a Marvel Studios, não presta” fica batendo na cabeça dos fãs dos filmes da empresa. Sim, pois o filme não é tão medíocre quanto atestam. Há muitas falhas, o elenco não parece funcionar bem junto, mas a história é interessante. O que achei mais estranho foi que Josh Trank bateu o martelo que não usariam nenhuma versão da Marvel (nem o que estamos acostumados e nem o Ultimate), mas termina que o filme tem muitas semelhanças com da Terra-1610. Não somente pelos personagens serem mais jovens, praticamente saindo do ensino médio, mas o envolvimento do pai de Sue e Johnny, o Dr. Franklin Storm, o tele transportador para outra dimensão, a feira de ciências. Vai passando o filme e você percebe esses elementos do Universo Ultimate.

O maior problema são as falhas do filme, pois nessa tentativa de se afastar dos universos Marvel, coisas perderam o sentido, como a forma que Reed, Ben, Sue e Johnny ganham seus poderes. No universo Ultimate o Dr. Storm percebe uma semelhança com os elementos da natureza, mas no filme não tem motivo nenhum, eles somente ganharam esses poderes por causa de acontecimentos aleatórios. O mais absurdo são os poderes de Sue Storm, pois vem de lugar nenhum. Eu já não gostava do que eu via nas fotos do Doutor Destino, no filme me desagradou mais ainda, sem contar que a sua “capa” surge de lugar nenhum, ele simplesmente a tem. Poderiam dizer que é a bandeira que Ben Grimm levara para a “Terra Zero” (cara, por que não chamaram de Zona-N?), mas não parecia ser, nem de perto era.

fantastic 4 bannerOutro grande problema é o entrosamento do elenco, que parecia ensaiado, não funcionando da forma como teria de funcionar. A amizade de Reed e Ben, mesmo que este último o tenha ajudado a carregar as malas para a Fundação Baxter (outra semelhança como o Universo Ultimate), parecia que era informal. Eles não pareciam como no Universo Ultimate, onde você os vê como irmãos, então a raiva de Ben, culpando Reed pelo seu infortuno, não teve a devida importância que deveria ter. Não vi a “química” funcionar entre o triângulo amoroso: Reed, Sue e Victor (sim, reprisaram essa ideia). Não parecia que ela tivesse um envolvimento com qualquer um dos dois, e quando citam que ambos confiam nela, eu fiquei pensando: “será mesmo?”, mas isso não quer dizer que as atuações sejam ruins. Miles Teller, que eu descobri toda sua força como ator em “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (2014), está muito bem como Reed Richards. Você percebe quando ele fica surpreendido, deslumbrado com seu novo lar na Fundação Baxter, ao mesmo tempo que sente o peso que ele carrega, culpando-se pelo que ocorrera com seu melhor amigo no acidente do tele transporte. Pena que somente nele percebi um certo esforço pela dedicação ao personagem.

Michael B. Jordan, que tanto defendeu seu personagem, percebi qualquer coisa que podemos dizer que seja relevante. Já não gostava de Kate Mara, achando-a insossa e totalmente desnecessária, mas nesse filme ela não consegue criar química nenhuma com aqueles com quem deveria criar. Não sei se a intenção era fazer uma personagem fria, mas mesmo assim esperava ver uma “chama” surgindo entre ela e Teller. Nem a raiva dela pareceu real.

Mesmo não parecendo se entrosar com Teller, Jamie Bell, o eterno Billy Elliot, tem seus bons rompantes de atuação. Ele parece encantado pela jovem Sue Storm, quando a vê pela primeira vez (pena que não foi correspondido), demonstra felicidade pelo amigo quando vão para a Fundação Baxter, mas depois que vira o Coisa, sua voz se torna – quase – monotônica. Perdendo bastante das emoções que deveria demonstrar nesses momentos, já que – dessa vez – ele é revestido de pedras, mesmo.

Nunca considerei Toby Kebbell um ator expressivo. Se ele interpretasse uma estátua seria o mesmo que vê-lo atuar, só que com voz. Ele não tem a força necessária para interpretar o Doutor Destino.

Bem, quando você lê tudo que eu escrevi, deve pensar, “como esse filme não pode ser tão ruim?”, mas mesmo com todos esses problemas, essa renovação do Quarteto teve muitos problemas de bastidores, que percebemos no decorrer do filme, devido aos buracos contidos no filme. O roteiro teria tudo pra deixar muitos de boca aberta, se os atores tivessem trabalhado melhor em conjunto e o ritmo não fosse tão morno. Não estou culpando Josh Trank (que escreveu e dirigiu o fantástico “Poder Sem Limites” (2012)), mas creio que ele tenha se sentido pressionado por esse filme, o que causou problemas na direção. Se ele tivesse seguido o filme de acordo com o roteiro, com certeza, poderia ser um dos melhores filmes do ano, mas infelizmente não é o caso.