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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Cultura do Deslocado: Quadrinhos.


SelfieSimpsonsQuando se procura a palavra descolado nos dicionários, em seu sentido figurado, se fala de alguém fora de seu ambiente habitual, formal.
Se pegarmos essa palavra no seu sentido macro, em ambiente generalizado, é assim que eu me sentia quando mais novo, pois gostava de coisas que outros não gostavam. Hoje esse sentido se dispersa, pois ser deslocado é ser pop, o que termina descaracterizando a palavra em si. Mas voltando ao seu contexto mais arcaico, ser deslocado era ser uma "pessoa em uma ilha", você gostava de assistir televisão enquanto outras pessoas de sua idade jogavam futebol. Você gostava de ler livros - sem obrigações escolares - e revistas em quadrinhos, enquanto seus "coleguinhas" gostavam brincar de pique, bolinha de gude ou jogar pião. Entendam, não que você não fizesse isso - eu mesmo brinquei muito de pique -, também, mas as suas preferências que prevaleciam eram as primeiras citadas. Elijah_PriceIsso se você não tivesse ossos quebradiços como Elijah Price.
Um deslocado era - ou é - uma pessoa com preferências e gostos diferentes de diversão e entretenimento. No meu caso, em específico, era meu prazer em ler quadrinhos, brincar de super-heróis (meu primo era o Batman, meu irmão era o Robin e eu, pra não ser o Alfred, era o Batmão (sem ferir os direitos autorais do Maurício de Sousa)), assistir desenhos animados e seriados (minha hipermetropia é graças as minhas horas de frente para a TV), passar horas desenhando, criando meus personagens (tem meu próprio universo de personagens) e criando suas histórias (coisa que eu faço até hoje em dia... bem maluco mesmo!), às vezes mesclando com as brincadeiras de super-heróis (a varanda da casa de minha avó era o cockpit de um furgão, com direito a comunicação por rádio. rastreamento por radar e sistema de armas).
Dentre todos esses prazeres, o maior deles era os quadrinhos.
Edição Extra de Batman - Histórias de CrimesEssa parte tenho de agradecer à minha mãe - que adorava Turma da Mônica e Disney - e ao meu pai - que ainda lê Tex e adorava Fantasma, mas principalmente à minha mãe, pois foi ela quem me deu minha primeira revista em quadrinhos, a Edição Extra de Batman - História de Crimes, um formatinho da Ebal, publicada em 1980, foi o meu primeiro contato com o Batman, em quadrinhos (lógico, eu já assistia Super-Amigos, mas isso fica para outro momento) . Eu lembro até hoje da sensação de pegar aquela revista em mãos, o cheiro dela, as páginas que pareciam canson A4. A história do Batman permeou minha mente durante muito tempo, pois era a primeira aparição da Dra. Leslie Thompkins e do Beco do Crime, ambos criação de Denny O'Neil e Dick Girodano. Tá, parece fora do contexto, mas o Beco do Crime somente começou a se chamar assim a partir dessa história Detective Comics #483(originalmente publicada na Detective Comics #483 (maio de 1979)), pois antes era somente o local onde os pais de Bruce Wayne morreram. Outra história memorável é a do Robin, pois ele está - praticamente - sozinho (mesmo tendo Duela Dent, que fora sua parceira na Turma Titã), enfrentando uma organização na faculdade Hudson, onde estuda. A história era dinâmica, ágil, ainda mais com os desenhos de Kurt Schaffenberger (lógico que nem fazia ideia do nome do desenhista, ou seja, isso me custou uma pesquisa para saber o nome dele). Sempre que me lembrava dessa revista, me lembrava dessas duas histórias, em particular, esquecendo as outras que compunham o almanaque.
Em 1984, a Ed. Abril adquiriu as revistas da DC Comics e lançou Batman, Super-Homem (esse era o título da revista) e Heróis em Ação.Heróis em Ação #1 Meu pai, dessa vez - talvez para compensar o divórcio -, foi o responsável pelas aquisições minha e do meu irmão, pois comprou as três para nós. Com o tempo perdemos as revistas (eu tinha 11 anos e nenhum juízo de colecionador), mas consegui readquirir Super-Homem e Heróis em Ação (esta em um estado de desmontamento). Com isso me tornei uma "barata" de banca, pois sempre procurava alguma novidade. Via as revistas de Aventura e Ficção, mas não podia comprar, pois meus pais - e nem o dono da banca - me deixavam ler por causa que diziam "isso não é revista para criança". Mas eu tinha meu primo que também colecionava, mas somente revistas da Marvel, em especial as do Hulk e Heróis da TV.Heróis da TV #53 Com ele conheci Shang-Chi, o Mestre do Kung-Fu, Capitão Marvel (eu conhecia o da Fawcett como Shazam por causa do seriado de TV). Quando fiz 15 anos, me deparei com Miracleman na banca que eu comprava revistas e decidi compra-la, foi como se uma nova magia atingisse meu âmago, pois era um super-herói bem diferente dos que eu estava acostumado, pois as queimaduras e as feridas que ele sofria ao enfrentar Kid Miracleman eram evidentes, com tonalidades bem aquém do se via nos quadrinhos da DC e/ou da Marvel. Depois consegui comprar minha primeira Aventura e Ficção que vinha com uma história em P&B do Robocop (eu havia visto o filme no cinema) e, Aventura e Ficção #8mesmo sem cores, podíamos perceber a crueldade do filme expressada em cada página.
Quando eu deixei os quadrinhos um pouco de lado (as condições financeiras não eram as mais favoráveis), perdi muita coisa que depois fui reconstruindo ao visitar sebos. Neles comprei toda Crise nas Infinitas Terras, que me deixou revitalizado com a nova DC Comics que estava despontando. Completei minha coleção de Novos Titãs, que andava defasada, pois não estava em condições de comprar, bem como Superamigos. Eu amava ler as histórias que faziam parte da coleção Super Powers, que eu completei graças aos sebos, também.
Falando da Nova DC que surgia, eu comprei a Batman #1 (2ª edição), onde começou Batman: Ano Um, com o fantástico roteiro de Frank Miller e divina arte de David Mazzucchelli, além de vir, também, com uma história do Sombra, desenhada por Howard Chaykin. Comprei também Super-Homem, com a história escrita e desenhada por John Byrne e fiquei maravilhado com aquele mundo novo que me era apresentado. Mas, lógico, anos antes tentara comprar as edições de Batman: Cavaleiro das Trevas e Watchmen, mas não deu para manter, mas em 1989, com os 50 anos do Batman, a Abril lançou um encadernado, que eu comprei (e tenho até hoje, em estado decrépito... lembrem-se, eu não tinha consciência de colecionador, ou seja, revista era para eu ler e, se gostasse, guardar, mas sem plástico).
Batman - O Cavaleiro das TrevasEu ainda tenho muitas edições memoráveis na minha coleção, além dessa Batman: O Cavaleiro das Trevas. Tenho Batman: Digital Justice (outubro de 1990), Watchmen (fevereiro-agosto de 1999), Novos Titãs #1Novos Titãs #1 - hoje autografada por George Pérez (abril de 1986), A Morte do Super-Homem - que eu havia perdido, junto com Funeral Para Um Amigo, De Volta do Limbo e os quatro número de O Retorno do Super-Homem, pois fiz a burrada de emprestar - (novembro de 1993), Marvels (janeiro-março de 1995), Batman Dia das Bruxas - 1 (outubro de 1995), Batman Dia das Bruxas - 2: Loucura (outubro de 1996), Batman Dia das Bruxas - 3: Ghosts (outubro de 1997), Batman: O Longo Dia das Bruxas (outubro de 1998 - fevereiro de 1999), Origem (abril-junho de 2002), Batman: Vitória Sombria (fevereiro-junho de 2003), e por aí vai, mas eu perdi muito material bom devido a cupim, mãe enfurecida, namoro à distância e mudança. Eu já tive uma coleção com mais de duas mil revistas, contando com DC e Marvel, pois fui apaixonado pela fase de Peter David no Hulk, tinha a edição comemorativa da Heróis da TV, bem como do Capitão América, além de colecionar X-Men e Wolverine. Hoje, na última contagem do Guia dos Quadrinhos, estou com 598 revistas (contando com minha coleção da Turma da Mônica Jovem, Mônica, Cebolinha, Chico Bento, Cascão e Magali).WatchmenMeu amor e dedicação ao que coleciono mudou hoje, pois tento preservar da melhor forma possível o que possuo. O "vício" sempre termina prevalecendo, mas eu tenho dado sorte no que coleciono (com exceção do que assino, pois ainda não li tudo, e o que eu li, gostei de pouco), sejam em encadernados da DC Comics (nem tudo é válido, mas o que vale eu guardo), Marvel Comics, Image Comics e outras produções, sejam independentes (como Maus) ou brasileiras.
Quadrinhos fazem parte da minha vida, como futebol faz parte da vida e um torcedor, carros fazem parte da vida daqueles que gostam, política faz parte da vida de um politizado (não vou falar de um político, pois esse é o meio de vida deles), e por aí vai.
Eu tento me manter atualizado sobre qualquer assunto, já que tenho de conviver com os outros seres humanos que não gostam do mesmo que eu, e mesmo aqueles que gostam, eu tento não me meter no assunto - pessoalmente -, pois não fui convidado a participar (isso aconteceu várias vezes no FIQ 2013 e minha língua coçou para me meter na conversa). Na maioria dos assuntos do cotidiano dos outros seres humanos eu me sinto fora do ambiente totalmente, um verdadeiro deslocado, diferente do mundo dos quadrinhos, onde eu me sinto a vontade.