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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Homossexualidade nos quadrinhos

Publicado no grupo Overdose HQ no dia 03/09/2014.

Não é de hoje que convivemos com esse tema nos quadrinhos, mas de uns anos para cá ele tomou tal proporção que, as vezes, podemos correr o risco de abrirmos uma revista e ver mudanças sexuais de nossos personagens.

A mídia e a política usam de forma acentuada qualquer tipo de informação que tenha relação a isso, seja apoiando, denegrindo ou mesmo sendo contra a homossexualidade.

Recentemente uma tempestade ocorreu por causa disso, nas duas grandes empresas de quadrinhos dos EUA.

Hercules & WolverineNa Marvel, vários canais de TV usaram e abusaram quanto a informação de um caso entre os personagens Hércules e Wolverine. Mas a mídia nem se preocupou em procurar saber do que estavam falando, que era referente a uma outra realidade do Multiverso Marvel, a Terra-TRN208.

Terra-2Já na DC, em 2011, foi revelado que o personagem Alan Scott seria homossexual na nova realidade da Terra-2. Quando a publicação chegou ao Brasil, um canal aberto local decidiu anunciar o fato, mas errou no Lanterna colocando uma imagem do Hal Jordan.

Vários foram as matérias a falar sobre a revelação do Lanterna Verde homossexual, assim como o primeiro casamento homossexual na Marvel, entre o membro da Tropa Alfa, Estrela Polar, e seu namorado.Estrela Polar

O grande lance é de que isso vale para a editora? Gera polêmica, com certeza, e as pessoas compram revistas, seja para criticar ou para apoiar, mas no caso do personagem Alan Scott, qual o grande motivo da editora de torná-lo homossexual.

A DC Comics passou por uma reformulação em 2011 intitulada Novos 52, mas antes dela Alan Scott era pai de um casal de gêmeos, Jennifer-Lynn Hayden, a Jade, e Todd James Rice, o Manto Negro. Todd, há alguns anos atrás havia se revelado homossexual, algo que não causou tanto alvoroço na época, pois era um personagem menor da editora. O mesmo ocorreu com as personagens detetive Renee Montoya e Kate Kane, a Batwoman, que também por serem personagens menores, sua relação passou batida pela grande mídia. Mas Lanterna Verde é um nome em evidência, pois teve um filme recentemente estrelado por um ator conhecido e, mesmo tendo somente o nome de super-herói como semelhança, gera interesse, ainda mais de grupos de movimento GLBT por todo o mundo.

Vou sempre defender que existe espaço para todos os tipos de gêneros e relações nos quadrinhos, pois é uma mídia de entretenimento, então independente da opção sexual de cada um, o importante é divertir o público no final. Mas o que eu não concordo é querer polemizar usando esse tipo de mídia, para ter um ganho - temporário - maior nas vendas. No mês de lançamento da revista Earth 2, ela nem chegou a fazer parte das 10 mais vendidas, de acordo com a Diamond Comic Distributors, ou seja, apesar da polêmica nas mídias, não alcançou - possivelmente - o sucesso que se esperava.

Não é de hoje que convivemos com gêneros diferentes de opção sexual nos quadrinhos, e sempre existirá aquele que deseja polemizar sobre o assunto. Como leitores, temos de buscar tratar isso como algo que faça parte da nossa realidade. Tentarmos ignorar, não querer falar sobre o assunto, não vai fazer com que ele deixe de existir. O que temos de buscar fazer é exigir que se respeito tanto a todos, sem desrespeitar nossa inteligência. Um personagem como o Estrela Polar se revelou homossexual quase logo depois de ter sido criado por John Byrne. Assim como os personagens Apollo & MidniteApollo e Meia-Noite, que eram membros do Stormwatch e do Autorithy, grupos da Wildstorm, empresa do desenhista Jim Lee, criados por Warren Ellis e Bryan Hitch. Antes mesmo da Marvel pensar em casar o Estrela Polar, Apollo e Meia-Noite se casaram na edição 29 de The Autorithy, celebrando o primeiro casamento homossexual dos quadrinhos.

A DC Comics aparenta ser a única empresa a não se aceitar que seu personagens possam ter opções sexuais diferentes. Ela já lidou com o assunto nas história do Lanterna Verde Kyle Rayner, quando um amigo do desenhista é agredido por ser homossexual. Até mesmo tornou tórrida a relação entre as personagens batwomanRenee Montoya e Kate Kane, e posteriormente de Kate com a detetive Maggie Sawyer (criada por John Byrne e homossexual desde sua origem). Mas não levou a frente a pretensão de casar Kate com Maggie. Assim como, ao tornar Alan Scott homossexual, terminou "assassinando" o namorado deste no primeiro arco da história.

O mais incrível é que, com Novos 52, a DC Comics se desfez de personagens como Manto NegroTodd Rice e seu namorado Damon Matthews, além da - primeira - bissexual Nocaute e sua namorada Scandal Savage. Ao invés de buscar trabalhar melhor esses personagens, como sua corrente terminou fazendo, não ela apagou-os da realidade e criou um "fogo de palha", somente para chamar atenção (o que terminou não dando muito certo).

A inclusão é fato, não tem como não acontecer. Trabalhar com certos aspectos que podem vir a ser complicados fazem parte de cada editora, mas o interessante, o importante mesmo é saber como trabalhá-los sem ser discordante do conhecimento dos leitores e sem desprezar aquilo que já existe. É difícil? Com certeza, pois estamos falando de uma forma de entretenimento que está acessível desde uma criança até um adulto, e muitos pais não entenderiam o motivo de estarem desenhando dois homens se beijando ou duas mulheres deitadas, nuas, sobre uma cama. Nos EUA ainda, as editoras sofrem com o puritanismo exacerbado de certas mães. Mas o que elas desejam é tapar o sol com a peneira, pois a opção sexual de cada um está além delas verem ou não o que acontece nos quadrinhos. Não é uma doença, não é - somente - uma opção, mas sim, é o que elas são (aprendi isso há muito tempo como uma amiga que "optou" por seu homossexual).

Convivo com pessoas do teatro há 16 anos da minha vida, então não vejo motivos para balburdias e sustos com as pessoas que são homossexuais. Elas não são diferentes de ninguém somente por serem quem são. Elas têm o direito de estar nos quadrinhos, assim como Thor, Capitão América, Homem-Aranha, Hulk, Superman, Batman, Aquaman, e até mesmo o Lanterna Verde (neste caso o Hal Jordan) também têm. O mesmo acontece com o sexo oposto que possui seus casos nos quadrinhos.

Não busco discutir o assunto, mas sim colocar minha opinião e observação sobre uma situação que me incomodou, não por causa da revelação, mas sim pelo descarte de personagens que já eram homossexuais, somente para gerar uma polêmica momentânea que não teve um grande retorno em vendas.

A mídia fez balburdia, gerou notícia, mas nada mudou o que já vem acontecendo há anos. Só podemos aceitar e curtir os quadrinhos, pois é uma forma de entretenimento para muitos e não direcionada somente para um grupo. Não sejamos preconceituosos, saibamos aceitar como as pessoas são e quem elas são, pois nunca sabemos o dia depois de amanhã.